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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Resumo das Leituras Obrigatórias UFRGS/2012: Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca

Por Allan Trois


Crédito da imagem: veja.abril.com.br


Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca


Feliz Ano Novo é um livro de contos publicado originalmente em 1975 pelo escritor Rubem Fonseca. Na época, censurado pela ditadura, o livro é composto por 15 contos, sendo o mais famoso deles o que dá nome ao livro.


Feliz Ano Novo


O conto se foca em três personagens principais: o narrador em 1ª pessoa, Pereba e Zequinha.

É véspera de ano novo e os três personagens combinam um roubo em alguma casa da parte nobre da cidade usando as armas de um conhecido ladrão de bancos, Lambreta. Ao baixar a noite, eles roubam um carro e saem a procura de um alvo para o assalto até que encontram um local apropriado. Na festa, cometem todo o tipo de atrocidades e saem levando comida, dinheiro e jóias. Ao fim de tudo, brindam o ano novo.


Corações Solitários


Um ex-repórter policial desempregado é contratado por uma pretensa revista popular feminina chamada Mulher para ser um de seus colunistas com o porém de que todos os contratados da redação têm de assumir um pseudônimo feminino. O personagem principal, sob protesto do editor-chefe, assume Dr. Nathanael Lessa como pseudônimo para umas das colunas e Clarice Simone para as fotonovelas de que é encarregado de escrever. De todas suas correspondências, apenas uma delas é real e não inventada pelo próprio. São as cartas de Pedro Redgrave, leitor da revista, que conta sobre seus desejos e frustrações. Ao final do conto, o personagem principal descobre que Pedro Redgrave é, na verdade, Peçanha, seu editor-chefe.


Abril, no Rio, em 1970


Zé é um contínuo, namorado de Nely, datilógrafa da mesma empresa em que ele trabalha. Seu sonho é ser jogador de futebol e em todo o conto, o que guia suas ações é a expectativa de no próximo jogo de domingo, ir bem e chamar a atenção de Jair da Rosa Pinto, técnico do Madureira. Ele acredita ser essa a sua grande chance de se tornar um jogador profissional e, para estar bem preparado para o jogo, ele briga com a namorada que pensa existir outra mulher na vida de Zé para fazer com que ele não queira passar a noite com ela. Zé vai para o jogo mas fracassa, nada dá certo e quem se destaca é Jeová, ponteiro do time adversário. Ele nem sabe se Jair da Rosa Pinto realmente esteve lá, só pensa na sua frustração de que tudo deu errado.


Botando pra Quebrar


Ex-presidiário com problemas para encontrar emprego é contratado para ser segurança de uma casa noturna. A sua situação piora quando sua mulher, Mariazinha, o larga pois ele não consegue ajudar com as contas de casa. Já no seu primeiro dia de trabalho, é repreendido pelo chefe por barrar alguém importante na entrada e, após discutir com ele, vê sua demissão como algo eminente. Juntando todas as suas frustrações, decide jogar tudo pro alto e arma uma briga para destruir a boate e dar prejuízo ao dono. Após o incidente, vai-se embora com um maço de dinheiro, dado pelo dono da boate, e sem emprego.


Passeio Noturno (Partes I e II)


Homem rico e entediado tem como principal diversão atropelar pessoas pelas ruas do Rio de Janeiro com o seu carro. Na segunda parte do conto, uma mulher o aborda na Avenida Atlântica e lhe dá seu telefone. Seu nome é Ângela e eles combinam de sair para jantar juntos. Após um encontro frustrante para ambos, o personagem-principal deixa Ângela perto de sua casa e, logo depois disso a mata atropelada por cautela com sua identidade e pelo prazer que tira dessas mortes. Ele volta para casa, troca algumas palavras com sua esposa e vai dormir.


Dia dos Namorados


Mandrake recebe uma ligação do advogado Medeiros. Ele o pede que livre um cliente seu, um banqueiro chamado J. J. Santos, de uma chantagem. J. J. Santos pega uma prostituta mas ao chegar a um quarto de hotel, descobre que quem ele pensava se tratar de uma mulher era, na verdade, um homem. Após discussão entre os dois, Viveca, o travesti, começa a se cortar com uma gilete a fim de chantageá-lo para conseguir dinheiro. Ele diz que só não se mata se J. J. lhe der o dinheiro que quer e Mandrake é o encarregado de resolver essa situação sem deixar rastros que danifiquem a imagem do banqueiro.

Mandrake assume o volante e, enganando Viveca, o leva para a frente de uma delegacia. Lá, confuso, o travesti acaba cortando um dos policiais que foi em sua direção e é preso. Ao dar depoimento, pede desculpas e conta uma história para incriminar J. J. e Mandrake. Após Mandrake arrancar o aplique de Viveca, aparecem notas de dinheiro que ele roubou de J.J. levando-o definitivamente a prisão. Mandrake se livra das pistas do acontecimento no hotel onde tudo aconteceu e seu trabalho está terminado.


O Outro


Executivo começa a ser perseguido por pedinte todos os dias, no seu intervalo de almoço. Lentamente, sua saúde começar a ficar debilitada pelo stress que essa situação cria nele e, por recomendação de seu médico, ele tira férias. A melhora é imediata e ele já se sente muito melhor até que, de alguma forma, o pedinte descobre onde ele mora e começa a importuná-lo também na frente de sua residência. Apavorado e com medo de que tudo volte a ser como antes, ele mata o pedinte. Com mais tranqüilidade, ele o olha e percebe que o antes forte e intimidador homem que o perseguia não passava de um garoto franzino e com espinhas no rosto...


Agruras de um Jovem Escritor


Renomado escritor mas desconhecido pela maioria é preso após suicídio de Lígia, sua namorada, por forjar a sua assinatura no bilhete que ela deixara antes de morrer. Se não bastasse, lendo o que Lígia digitava enquanto ele ditava, descobriu que quem realmente escrevia o seu grande romance era ela, e não ele.


O Pedido


Amadeu precisa de dinheiro e vai pedir a Joaquim. Ambos não se falam há mais de cinco anos, apesar de o motivo disso não ser claro para Amadeu. Ambos emigraram juntos de Portugal para o Brasil.

Joaquim nota a decadência de Amadeu e, por instantes, se vê satisfeito com isso. Amadeu se sente humilhado e estar na situação em que está e precisando pedir dinheiro. Seu filho morreu e então se revela que esse foi o motivo da briga entre os dois: enquanto o filho de Amadeu era um doutor bem encaminhado na vida, o filho de Joaquim era um vagabundo sem rumo. Após isso, Amadeu vai embora resignado, com lágrimas nos olhos e Joaquim, ao ver o que havia feito com seu antigo amigo, em prantos, corre para a rua com o dinheiro que Amadeu pediu mas ele já não estava mais lá.


O Campeonato


Conto que com uma linguagem bizarra fala sobre um campeonato ilegal de conjunções carnais. 


Nau Catrineta


Trata sobre uma tradição de família que estabelece que o varão da família no seu vigésimo primeiro aniversário escolha uma pessoa que estime muito e então a coma. É o que faz o personagem-principal com a sua namorada, como determina a tradição iniciada por um ilustre ancestral para que ele então se torne o chefe da família.


Entrevista


Conversa em que os personagens são representados apenas por H e M. M conta a sua história de como chegou onde chegou, de como perdeu um filho e sua relação com o ex-marido.


74 Degraus


Triângulo amoroso entre Tereza, Elisa e Pedro que termina no assassinato de Pedro. Após ele tentar estrangular Tereza, Elisa aparece e Pedro vai atendê-la enquanto Tereza volta a si e o golpeia repetidas vezes com uma estátua de bronze.


Intestino Grosso


Entrevista do Autor para o personagem-narrador falando sobre pornografia, literatura e o ser humano.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Machado de Assis nascia há 172 anos



Crédito da imagem: academia.org.br
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e morreu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época.

Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Os biógrafos notam que, interessado pela boémia e pela corte, lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual. Para isso, assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras.

Sua extensa obra constitui-se de 9 romances e peças teatrais, 200 contos, 5 coletâneas de poemas e sonetos, e mais de 600 crônicas. Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Este romance é posto ao lado de todas suas produções posteriores, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes a sua segunda fase, em que nota-se traços de pessimismo e ironia, embora não haja rompimento de resíduos românticos. Dessa fase, os críticos destacam que suas melhores obras são as da Trilogia Realista. Sua primeira fase literária é constituída de obras como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, onde nota-se características herdadas do Romantismo, ou "convencionalismo", como prefere a crítica moderna.

Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.

Fonte: Portogente

sábado, 14 de maio de 2011

Leituras Obrigatórias da UFRGS 2012: História do Cerco de Lisboa

Crédito da imagem: confinshistoria.blogspot.com


Por Mário Sérgio Leandro

Personagens do romance:

        Raimundo Benvindo Silva: É o revisor de texto e protagonista do romance; e o seu nome ficamos sabendo somente na p. 27. Raimundo tem uma vida pacata e tranqüila no seu ofício de revisor de texto da editora. Certo dia, ao realizar a revisão do livro da História do Cerco de Lisboa, é acometido de um ‘certo mal’ e interfere na ideia central da obra: a indecisão dos Cruzados em auxiliar ou não el-rei no cerco da capital portuguesa para expulsar os mouros. Eis que Raimundo insere um NÃO na dúvida e altera totalmente a ordem da história e a manda assim para a produção. O interessante é que depois do episódio o dia a dia de Raimundo torna-se mais vivo mais agitado, ainda mais quando conhece Maria Sara, nova chefe dos revisores, pois se renova um não sei o quê dentro de seu peito. Maria Sara percebe que com NÃO inserido na história abre-se um precedente para a escrita de uma nova versão do cerco e que somente Raimundo o pode escrever.

        O Historiador: É quem escreve o livro sobre a História do Cerco de Lisboa, ele e Raimundo são amigos e é na conversa de ambos que começamos a ler o próprio livro de Saramago. O motivo da conversa inicial é sobre a tecla deleatur e a sua função. No início do romance, temos uma conversa  que vai do específico para o geral; pois tudo isso se origina a princípio da função dessa tecla. De uma certa maneira, esse exercício que Saramago realiza já nas primeiras páginas do romance segue até o fim do livro.

        O Costa: É o responsável de receber as cópias revisadas dos revisores e encaminha-las à produção. Depois da alteração feita por Raimundo, ele fica um pouco ríspido com esse. Raimundo fica realmente muito triste e envergonhado por passar para trás uma pessoa como o Costa.

        Maria Sara: É a profissional contratada para ser a chefe dos revisores depois do episódio da alteração de Raimundo. Quando Raimundo é chamado depois de “Treze longos dias” à editora para dar explicações sobre o ocorrido, ela está na sala junto ao diretor literário e ao diretor de produção; mas ela não é apresentada a Raimundo, o que deixa o revisor de texto muito inquieto.

        O Diretor Literário: É que recebe Raimundo e o chama à responsabilidade de responder pela alteração feita na obra. O diretor literário chega a afirmar que a alteração realizada pelo revisor não foi um erro; e sim, um procedimento deliberado, pois o NÃO escrito não tinha a forma de uma emenda, mas era muito parecido com a escrita do texto original.

        Senhora Maria (a mulher-a-dias): É a empregada doméstica quem faz a limpeza na casa de Raimundo. Quando Maria Sara passa a noite com Raimundo e ela vai ao quarto fazer a limpeza e sente o perfume de Maria Sara e também vê a casa arrumada, desconfia de que Raimundo esteja se relacionando com alguém.

       


Os personagens da obra História do Cerco de Lisboa.

        O Almuadem: Mouro, cego, o qual, todos os dias, chama o povo islâmico da cidade sitiada à oração, parece ser um guia espiritual; mas em nenhum momento Saramago ou mesmo Raimundo Silva o distinguem desse modo.
        El-rei Dom Afonso Henriques: É quem lidera os soldados católicos rumo ao cerco de Lisboa. Tenta implementar o cerco à cidade o quanto antes, pois têm problemas de ‘caixa’ para pagar um novo soldo dos soldados que lhe vence em dois meses.

        Mem Ramires: É um dos capitães dos soldados do cerco. Entre eles, havia muitos capitães estrangeiros: bretões, franceses, germânicos. Entre os soldados portugueses, no fim do romance, há um princípio de motim, pois os soldados portugueses querem a divisão e o pagamento do saque em partes iguais, pois morreram da mesma morte que os capitães estrangeiros e lutaram pela mesma vitória.

        Mogueime: É um dos soldados que lutam no cerco de Lisboa. Raimundo Silva identifica-se muito com essa personagem e, às vezes, coloca os seus próprios sentimentos na pele de Mogueime. Tive essa sensação quando Mogueime fala de sua paixão por Ouroana: parece não ser Mogueime que está a falar, e sim, Raimundo a falar de Maria Sara. Mogueime, no motim citado acima, fica sendo o escolhido entre os soldados para representá-los na discussão da divisão do saque à cidade, pois é mais bem esclarecido com as letras e a fala; o que surpreende, de certa forma, el-rei. Mogueime ganha fama e autoridade porque, na tomada da cidade de Santarém, seu corpo serve de escada para que os soldados subam ao adarve onde estão os mouros, tanto que ele conta essa história aos soldados mais novos no próprio livro.

        Frei Rogeiro: Faz às vezes de interlocutor e intérprete nas discussões entre os mouros e el-rei. Representa a Igreja.

A obra


        Ler Saramago é atentar para os detalhes do cotidiano os quais passam despercebidos na correria de uma vida urbana do nosso medíocre dia a dia. O início do livro história do cerco de Lisboa começa bem ao estilo de José Saramago. Surpreendentemente. A trama começa com a discussão entre o revisor de texto e o historiador sobre a edição do livro e sobre a função da tecla deleatur; demonstrando a genialidade do autor e nos mostrando o nascedouro de um texto e do livro: a tipografia; os bastidores da edição e revisão textual. A discussão começa bem divertida até porque tanto revisor como historiador, a partir da função da tecla deleatur, vão a fazer discussões filosóficas, num ir e vir sobre a vida de ambos. Isso tudo acontece num tipo de preâmbulo da obra, pois a obra de Saramago não possui as divisões clássicas: introdução, capítulo I, índice, etc. Não espere uma obra normal – não de José Saramago, mas é aí que surge um dado importantíssimo o qual irá desenrolar-se durante todo o resto da obra: a influência das “emendas” realizadas no texto pelo revisor; e de todo o conhecimento e suporte que requer o exercício dessa profissão. A discussão é bem interessante e o leitor deve lê-la como se essa fosse uma apresentação que o autor faz ao seu leitor, pois Saramago coloca-se assim no texto, não apenas como mero narrador isento; não, mas como uma pessoa a qual traz toda a cotidianidade dos detalhes de nossas vidas para um texto sério e adulto; porém não menos divertido, leve e também responsável do ponto de vista da leitura. Então, precisamente, essa é a introdução da obra: a discussão a respeito da função da tecla deleatur e suas implicações de uso – não somente no texto –, mas também na vida das pessoas, inclusive de revisores e historiadores e as emendas que são feitas no próprio texto.

        Para quem ainda não leu nenhuma obra desse grande escritor português, talvez venha a surpreender-se com a forma do texto: ele não usa muito o ponto final para encerrar as frases; e os diálogos não são demarcados de forma clássica: “A senhora precisa de mais alguma coisa?” “Não, muito obrigada”. Esqueça esse formalismo; isso faz parte do autor, é uma característica dele. Pois bem, o nome do nosso revisor de texto, o qual somente vamos saber algumas páginas bem adiante (p. 27), chama-se Raimundo Benvindo Silva, e ele tem o livro História do Cerco a Lisboa para formatá-lo e entregar ao Costa, chefe da produção da editora para qual Raimundo trabalha e assim como:

“Aristóteles dissera que as moscas possuem apenas quatro patas (apesar de as crianças comprovarem que as moscas possuem seis), o revisor não lerá todo o livro para entregá-lo na manhã seguinte, pois o sacrifício não o apetece e foi tomado pela antipatia pela obra e pelo autor”, p. 38.

Outro aspecto interessante que merece ser apontado é a análise de Raimundo sobre de como se produz a história:
“Machado, crédulo, copiou sem conferir o que haviam escrito Frei Bernardo de Brito e Frei António Brandão, é assim que se arranjam os equívocos históricos, Fulano diz que Beltrano disse que de Cicrano ouviu, e com três autoridades dessas se faz uma história”, p.39.

Talvez tenha sido essa situação que tivesse mexido com Raimundo desde o começo da revisão e daí a sua antipatia pela obra e pelo autor. Os cruzados analisam a situação do cerco à cidade e se ajudam ou não no combate aos mouros; o texto diz que os cruzados sentiram-se diminuídos em ter de lutar no território português, pois foram treinados e se prepararam para defender e resgatar a Terra Santa e aquilo, de certa forma, era uma humilhação e aí temos também uma característica da narrativa: Saramago nos conta um pouco da História do Cerco de Lisboa e do impasse dos Cruzados no auxílio à cidade; conta-nos também sobre os acontecimentos da vida de Raimundo. Então, temos um vai e vem no texto em que o leitor precisa ficar atento a esses detalhes, pois assim é muito fácil perder-se na narrativa.

Aqui temos um fato interessante: depois da conversa com o autor da obra, Raimundo é tomado por um sentimento de repulsa pela obra e pelo o autor, mas ele continua a ler o livro e é aí que acontece algo bem diferente: Raimundo faz uma emenda a qual dará ao livro um desfecho completamente diferente daquele que seu autor projetou à obra. Raimundo coloca um NÃO na sentença: “e os cruzados decidiram que os portugueses NÃO terão a sua ajuda”. O que não estava escrito e ele o faz deliberadamente. Saramago, para deixar o episódio mais divertido, compara a situação de Raimundo e o seu conflito em emendar ou não o trecho do livro com um outro clássico da literatura universal: Dr. Jekylll e Mr. Hyde, o médico e o monstro. E a partir daí parece que o cerco à cidade começa a fazer parte da realidade de Raimundo, pois após a entrega da cópia ao Costa, segue-se uma verdadeira recontagem da história. O revisor de texto, ao ter consciência da alteração feita, não permanece em casa no dia seguinte após a entrega da cópia revisada, vai à Leiteria A Graciosa, faz um lanche e procura não ficar em casa para não ter de atender a qualquer telefonema e presenciar uma possível visita do Costa.

Crédito da imagem: ciadasletras.com

Nisso, dá-se uma fuga em direção aos muros que cercam a cidade e, ao passar pelas ruas e perceber a fisionomia das casas, é trazida às lembranças de Raimundo os fatos lidos no livro História do Cerco de Lisboa. Ao fugir de casa, sente-se como um Cruzado em não querer ajudar a cidade, pois se encontra fora dos muros da cidade. Nesse passeio, Raimundo vê o quanto fora “cego” (como o almuadem, cego, que chama os mouros às orações no alvorecer de cada manhã) de não conhecer a sua própria cidade, pois a conhecia somente dos livros, mas de que o adianta: se não a vive, se não a tem nas mãos, nos olhos, e poder dizê-la: minha cidade. Na sua caminhada, encontra uma cigana pedinte e os olhos dela mostram a Raimundo que o cerco ainda não acabara; não o cerco à cidade, mas o cerco da pobreza e discriminação que ainda existem. Não só em Lisboa, mas em todos os lugares sob a égide do capitalismo. Outro aspecto interessante: como os cegos têm participação na obra de Saramago: o almuadem cego, a Rua dos Cegos, os três fantasmas cegos (o que foi, o que esteve para ser e o que poderia ter sido); apesar de Ensaio sobre Cegueira não ser também uma leitura obrigatória, podemos ver aqui um possível indício de uma questão envolvendo a temática da cegueira ou a acessibilidade. Ainda com o passeio, ao longe, Raimundo vê a localização de sua casa e não sabe se no passado distante a sua casa fora sitiada ou sitiante, demonstrando a profunda relação do revisor de texto com a História do cerco de Lisboa.

Passados 13 dias depois da entrega das cópias, Raimundo é chamado à editora para explicar-se sobre o ocorrido: como um revisor tão dedicado, tão sério, tão responsável, foi capaz de fazer tamanha desonra à editora? E quanto à errata que a editora teria de fazer: “onde se lê não, não se leia não, leia-se sim”. Todo esse tempo de trabalho, a confiança, como pode? Apesar disso, Raimundo não é demitido, possibilidade que, até o meio da conversa com o diretor literário, era o mais evidente desfecho. Na reunião, ele fica sabendo que todos os revisores de textos terão como chefe a Sra. Maria Sara, a qual fica à parte da discussão entre Raimundo e o diretor literário e o diretor de produção. Ela manifesta-se somente quando ambos citam a conversa entre Raimundo e o historiador sobre a função da tecla deleatur, a qual ela havia desconhecer. Raimundo escreve uma carta de desculpas para o autor do livro, fica incomodado com a presença de Maria Sara, a qual somente será apresentada ao Sr. Raimundo mais tarde como tal, num telefonema ao mesmo. Recebe a ligação da editora e Maria Sara o chama para uma reunião, Raimundo fica agitadíssimo, passa tintura nos cabelos, em que Saramago diz que “a Estética é rainha, rei e presidente”, fazendo alusão a uma característica pós-moderna: o parecer ser.

No encontro com Maria Sara, Saramago para a narrativa para analisar os movimentos e trejeitos de ambos, em que Raimundo recebe da chefa dos revisores, um livro sem a errata, alegando que Raimundo, quando fizeram a emenda que dera um contexto completamente diferente daquele que o autor pensara ao livro, escrevera outra história, também era um autor. Raimundo recebe-o como sinal de troça (ridicularização) da chefa para com ele; dizendo a ela que era revisor, que não era autor, que não o chamasse ali para isso, fica perturbado novamente. Depois disso, Raimundo sente-se como um estranho dentro da própria casa, é preciso andar pelos cômodos da casa até reconhecer-se como antes. Analisa o único exemplar sem a errata e sintetiza: “um livro só tem um dono; um dono que não pode querer a mais ninguém”. Raimundo reflete sobre os acontecimentos e é tomado de uma energia revigorante diante da contemplação da cidade a partir da janela do seu escritório num dia de chuva. Saramago faz uma contagem do tempo, mas não esse tempo ordinário: dias, semanas, meses... Faz uma aproximação de quanto temos ficamos à janela a contemplar o dia, o rio, o céu, essas coisas mais simplesmente humanas a que não fazemos mais.

Raimundo decide escrever um livro, uma nova versão da História do Cerco de Lisboa, e isso talvez seja o que tinha em mente Maria Sara ao dar-lhe um exemplar do livro sem a errata, como uma forma de estímulo, pois a emenda NÃO não foi apenas uma emenda, mas o seu sentido dá vazão a uma nova análise e possível reescrita do episódio, pois há muitos itens que não estão muito claros na obra primeira. E Saramago faz essa análise e isso dá subsídios para Raimundo realizar a empresa. Raimundo sente uma vontade enorme de sair à rua, procurando indícios que possam lhe fornecer para a escrita da nova versão. Tem dificuldades de iniciá-la e a partir do NÃO começa a relacionar os pormenores do fato histórico.

Creio que Raimundo apaixona-se por Maria Sara, mas esse sentimento é algo que ele não compreende que o seja; e ela não acredita que o possa existir, até o episódio do toque na rosa branca. Maria Sara fica tocada com o gesto de Raimundo na rosa branca. Depois disso, fica Raimundo, a saber, que a senhora Maria Sara está doente, fica um tanto nervoso e sem jeito de solicitar o número do telefone à telefonista da editora, mas acaba pedindo e decide ligar de casa; mas não liga. Ao chegar em casa, fica adiando o momento em que deveria ter ligado, mas novamente não liga. A senhora Maria mulher-a-dias deixa um recado para que ele retorne a ligação no número anotado: é o mesmo número que tem no bolso – o de Maria Sara. Ele liga; os dois conversam e daí em diante começam a ter um relacionamento que vai crescendo junto com a nova versão da História do Cerco de Lisboa. Em algumas partes da nova versão, vemos algumas semelhanças no desenvolver da trama e no desenvolvimento da relação de Raimundo e Sara, quando do exemplo de que não sabe se Ouroana irá querer ficar com Mogueime, pois Mogueime é somente um soldado e não chegará a capitão, mas Maria Sara percebe que ele não está a falar de Ouroana, mas sim dela mesma em relação ao seu novo relacionamento. Aqui Saramago faz uma crítica ao machismo na fala de Maria Sara.

Ambas as histórias vão se desenvolvendo, a cidade é retomada, e assim termina a obra:

        “São três horas da madrugada. Raimundo pousa a esferográfica, levanta-se devagar, ajudando-se com as palmas das mãos assentes sobre a mesa, como se de repente lhe tivessem caído em cima todos os anos que tem para viver. Entra no quarto, que uma luz fraca apenas ilumina, e despe-se cautelosamente, evitando fazer ruído, mas desejando no fundo que Maria Sara acorde, para nada, só para dizer-lhe que a história chegou ao fim, e ela, que afinal não dormia, pergunta-lhe, Acabaste, e ele respondeu, Sim, acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem. E Mogueime, e Ouroana, que foi que lhes aconteceu, Na minha ideia, Ouroana vai voltar para Galiza, e Mogueime irá com ela, e antes de partirem acharão em Lisboa um cão escondido, que os acompanhará na viagem, Por que pensas que eles se devem ir embora, Não sei, pela lógica deveriam ficar, Deixa lá, ficamos nós. A cabeça de Maria Sara descansa no ombro de Raimundo, com a mão esquerda ele acaricia-lhe o cabelo e a face. Não adormeceram logo. Sob o alpendre da varanda respirava uma sombra” p. 319.


Crédito da imagem: professortinoco.blogspot.com
A leitura desse texto não substitui a leitura integral do livro. A próxima resenha a ser publicada aqui será Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Deixe o seu comentário sobre o texto; ajude-nos a fazer um texto bem completo para quem vai prestar o vestibular no fim de ano.

Boa Leitura e Abraços


Leia também o resumo do vestibular OUL

terça-feira, 12 de abril de 2011

Carinhoso

Escritos para a neta Dandara, poemas inéditos de João Cabral de Melo Neto revelam nova faceta do poeta

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo

 

Crédito da imagem: estadão

 Conhecido como o poeta da matéria, por seus versos secos, exatos, sem ilusões e de emoções omitidas, João Cabral de Melo Neto (1920-1999) era capaz também de uma escrita breve, coloquial, luminosa e até engraçada. É o que comprova o pequeno e adorável Ilustrações para Fotografias de Dandara, que a editora Objetiva lança nesta semana, com ilustrações de Mariana Newlands. Trata-se de um álbum criado pelo poeta para matar saudades da neta quando trabalhava como embaixador no Senegal.

Leia mais em: estadão.com

terça-feira, 29 de março de 2011

Começa a Corrida para o Vestibular da UFRGS 2012

Já está no site da UFRGS a lista das Leituras Obrigatórias para o Vestibular 2012. Olha aí:

Concurso Vestibular 2012

LEITURAS OBRIGATÓRIAS PARA A PROVA DE LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Para o Concurso Vestibular de 2012, será exigida a leitura prévia e completa das seguintes obras:
1. João Cabral de Melo Neto - A Educação pela Pedra;
2. José Saramago - História do Cerco de Lisboa;
3. Moacyr Scliar - O Centauro no Jardim;
4. João Simóes Lopes Neto - Contos Gauchescos;
5. Guimarães Rosa - Manuelzão e Miguilim (Campo Geral e Uma estória de amor);
6. Dias Gomes - O Pagador de Promessas;
7. Rubem Fonseca - Feliz Ano Novo;
8. Cristóvão Tezza - O Filho Eterno;
9. Basílio da Gama - O Uraguai;
10. José de Alencar - Lucíola;
11. Poemas de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa - ( 1. Mestre, Meu Mestre Querido!, 2. Ao Volante do Chevrolet pela Estrada de Sintra , 3. Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto,  4. Lisboa com suas Casas, 5. Todas as Cartas de Amor São, 6. Ode Triunfal, 7. Lisbon Revisited (1923), 8. Tabacaria, 9. Aniversário, 10. Poema em linha reta );
12. Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Tentaremos ao longo do ano disponibilizar até outubro todos os resumos desses títulos aqui no Bibliotecando por aí. Por isso, sempre dê uma passada por aqui.

Boa preparação!