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sábado, 21 de abril de 2012

Os sacrifícios da leitura

Fabiano dos Santos: grande parte das nossas escolas ainda está formando analfabetos funcionais.

Depois de coordenar políticas públicas para a área do livro e da leitura na Secretaria da Cultura do Ceará e no Ministério da Cultura, o escritor e doutor em literatura Fabiano dos Santos assumiu em janeiro último a diretoria de Leitura, Escrita e Biblioteca do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe, um órgão ligado a Unesco e com sede em Bogotá. Em visita recente a Fortaleza, ele – que nasceu no Rio Grande do Norte, mas adotou o Ceará como sua casa – comentou os resultados da recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil e falou sobre os desafios de se incentivar a leitura atualmente.

O POVO – A pesquisa apresenta uma – ao menos aparente, já que houve um aprimoramento do método da pesquisa – queda no número de livros lidos pelo brasileiro por ano. Passou de 4,7 em 2007 para 4 em 2011. Isso se contarmos os livros lidos na escola, caso contrário, o número cai para pouco mais de um livro por ano. Como você avalia esse dado? As políticas públicas não surtiram resultado?
Fabiano dos Santos - Primeiro, nós temos uma dívida social e histórica com a leitura no Brasil que é enorme e não vai ser resolvida em uma gestão ou duas gestões. Ela requer pelo menos um par de décadas para melhorar esse quadro. A meta do Plano Nacional de Cultura é que o índice de leitura no Brasil chegue a quatro livros lidos ao ano em 2022. O livro lido fora da escola. Eu acho uma meta muito ousada. Por outro lado, tivemos um avanço nas políticas públicas. Hoje o Governo compra sistematicamente livros de literatura para as bibliotecas escolares, da educação infantil até o ensino médio e o EJA (Educação de Jovens e Adultos), ou seja, você tem uma política de fomentar a leitura por meio da literatura. Mas há ainda uma fragilidade nesse programa do Ministério da Educação que é a formação do professor leitor. Essa é no meu ponto de vista uma das agendas mais estratégicas para o desenvolvimento do Brasil. Como um professor que não gosta de ler vai incentivar o aluno a ler?

OP – De acordo com um comparativo produzido pelo Cerlalc, o argentino lê 4,6 livros por ano e o chileno 5,4. O que faz os dois países estarem à frente do Brasil?  
Fabiano - A Argentina venceu a questão do analfabetismo ainda no final do século XIX, início do XX. O Chile também venceu o problema no início do século XX. Então, historicamente esses dois países souberam superar esse problema há muitas décadas atrás. No Brasil, nós ainda temos uma taxa de analfabetismo de, se não me engano, 11%. No Nordeste, isso aumenta, vai pra 15, 18%. Essa é uma das razões. Além do analfabetismo, existe o tal do analfabetismo funcional, que é aquele que lê, mas não compreende o que lê, não consegue estabelecer relações. Por isso, a gente não pode fazer uma leitura isolada dessa pesquisa, você tem que fazer analogias e comparações. Por exemplo, nós avançamos no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). De 2001 para 2009, nós saímos da última colocação e demos um salto, avançamos 12 posições, e isso tem a ver com os investimentos em educação nessa década. Outro indicador, o Prova Brasil, que mede o índice de compreensão leitora dos alunos de 3ª e 5ª séries, mostrou que mais de 50% dos alunos que chegam ao terceiro e quinto anos não desenvolveram a competência de escrita e leitura que aquela série coloca como meta. Ou seja, é triste o que eu vou dizer, mas grande parte das nossas escolas ainda está formando analfabetos funcionais. Eu digo ainda, porque isso vem melhorando.

OP - Por que a importância de se incentivar a leitura por prazer?
Fabiano - A pesquisa nos revela que a leitura em termo de faixa etária está muito associada ao período da escola e ao período da universidade. Isso vai diminuindo drasticamente depois, o que mostra que a escola não tem conseguido formar leitores pra vida inteira e esse é o desafio da escola. Aí entra a dimensão cultural da leitura. A escola tem desempenhado um papel importante na formação do leitor, mas é uma leitura instrumental, você lê pra responder, não pra fazer perguntas. Só a abordagem escolar, pedagógica, não dá conta, por isso que a leitura tem que ser despertada como um prazer para a vida inteira. A defesa da literatura reside nisso. Isso é fundamental na formação de uma nação de leitores.

OP - Qual a razão de livros como A Cabana e Ágape estarem no topo do ranking dos mais lidos?
Fabiano - As grandes editoras brasileiras hoje estão priorizando as traduções, estão priorizando a lista dos livros mais vendidos da Amazon. Isso é muito perigoso, porque se você for pegar a tradição dos conselhos das grandes editoras, que têm um papel importante na difusão da literatura brasileira, você percebe que eles primavam muito pelo conteúdo. Hoje existe o risco de você priorizar o potencial apenas econômico. Então quando os conselhos se reúnem, um sujeito fala: “Veja como está a posição dele na Amazon!”. Se estiver até entre os 50, tudo bem. Mas se tiver na rabeira, não se vai nem analisar o livro. É importantíssimo e necessário o Brasil traduzir a literatura de todos os lugares, mas, por outro lado, nós temos que criar situações pra que a literatura brasileira seja exercitada. Isso significa políticas de fomento para a criação literária, que uma parte cabe ao governo, mas o mercado também tem que ter essa responsabilidade política e social de publicar e difundir a literatura brasileira. A importância que a literatura brasileira tem nas campanhas publicitárias e planos de mídia e marketing em comparação aos best sellers é triste. Essa é uma questão que temos que enfrentar e conversar com o mercado editorial.

OP - Mas existe uma demanda do próprio leitor nesses casos.
Fabiano - É uma demanda que surgiu nos últimos anos, a temática da autoajuda e agora dos livros religiosos. Eu nunca fui contra que leiam um Paulo Coelho, por exemplo. Simplesmente eu li uma vez e pra mim não bateu. Mas às vezes uma leitura como essa pode formar leitores. Tem uma meninada que lê Harry Potter e está lendo outras literaturas também.

OP - A literatura perde cada vez mais espaço para o entretenimento audiovisual. Existe uma estratégia pra se ganhar terreno nessa disputa pelo potencial leitor?
Fabiano - Primeiro, eu não estou muito preocupado com essa competição, mesmo porque as pessoas que são leitoras possivelmente vão ver um bom filme, um bom programa na TV. Eu acho que a leitura tem que ter uma interface com as outras linguagens, com o cinema, com a TV, com o teatro, com a música. Quando estava naquele debate no fim do livro, há uns quatro anos, os editores todos preocupados, o Umberto Eco escreveu Não contem com o fim do livro, em que ele diz que o livro é como uma colher ou um martelo, que se desenvolveu a tal ponto que o máximo que você pode ter são outros tipos de martelos e de colheres. Talvez uma das estratégias interessantes é pensar como as políticas podem associar a produção audiovisual com a literatura.

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