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terça-feira, 14 de junho de 2011

Semear estantes

Marize Castro, em uma biblioteca de Paris: pesquisa sobre Zila Mamede tomou dois anos de trabalho

"Compreender é mergulhar na essência, vir à tona, completamente transformado e com o poder de transformar", afirmou Marize Castro ao comentar sua pesquisa sobre Zila Mamede (1928-1985). A jornalista lança na próxima sexta-feira (17), às 11h30, na Cooperativa da UFRN, o livro-ensaio "O silencioso exercício de semear bibliotecas" (Editora Una, 158 pág.), fruto de sua dissertação de mestrado em Educação, e reforça com suas palavras que não basta saber, é preciso, antes de tudo, compreender.
Marize passou dois anos, entre 2002 e 2004, envolvida com a trajetória da bibliotecária Zila Mamede: visitou o apartamento onde a poeta viveu em Petrópolis; conversou com Ivonete Mamede, irmã caçula de Zila; se embrenhou em arquivos de jornais; buscou referências em livros de autores potiguares e montou um quebra cabeça até então inédito - Zila já havia sido objeto de estudo em outras pesquisas, que sempre abordaram sua verve poética.

"Havia uma lacuna, e tentei preencher da forma mais ética possível", disse a autora a respeito da necessidade de se explorar o viés lítero-social de Zila, principal responsável pela criação das principais bibliotecas públicas do RN, entre elas a da Universidade Federal e Estadual Câmara Cascudo.

O interesse de Marize Castro pelo assunto é de longa data, e quando se viu diante da oportunidade ponderou: "eu posso tornar Zila objeto de estudo de um mestrado". A jornalista constatou que a poeta já havia sido "tocada" pelos acadêmicos, e que seu trabalho como bibliotecária permanecia intocado. "Era terreno virgem, fértil, e foi nesse terreno que decidi entrar. E escolhi como porta principal a década de 1960, e o livro mostra Zila Mamede semeando bibliotecas naquela Natal tão minúscula, mas com um  universo cultural e político tão significativo", disse.

Ao longo de sua pesquisa, Marize Castro se viu diante de várias encruzilhadas e por isso lançou mão de seu faro jornalístico para decifrar e decodificar informações. "Durante a 'colheita' surgem muitos dados. Alguns 'dizem', mas, na verdade, não dizem, desviam o pesquisador. Às vezes o caminho é sem volta e o pesquisador é enganado, ou se deixa enganar - o que é terrível, a meu ver, pois ele deixa de dar sua contribuição, deixa de retirar o véu e contar a verdadeira história", analisa.

Entre os motivos que moveram Zila Mamede em sua cruzada a favor da educação e da literatura, Marize lembra da "mulher rigorosa e apaixonada. Ela realizou uma obra para ser estudada e admirada por gerações, seja na poesia, seja na biblioteconomia", e acrescenta: "Zila Mamede era guiada por aquele verso do Mallarmé 'tudo que no mundo existe começa e acaba em livro'."

De acordo com Marize, o motivo maior para a dedicação de Mamede foi a percepção de que "a cidade escolhida para morar e viver toda sua vida carecia dessas casas que abrigam livros e tornam os homens mais humanos."

Se deparou com muitos desafios ao longo de sua trajetória, alguns, inclusive, venceram seu empenho, como o caso da biblioteca holística que ela chegou a planejar para o RN. "Um projeto ousadíssimo até mesmo para os dias de hoje". Apesar do trabalho cansativo, Marize garante ter sido prazeroso: "Felizmente as informações ainda estão frescas, afinal século XX ainda está aí, um senhor ainda bem viril. O melhor mesmo era quando eu sentia que minha vida se misturava com a de Zila. Eu via nela o que vejo em mim, uma necessidade de procurar, descobrir, aquela curiosidade ininterrupta", verifica a jornalista, que apurou boa parte das informações para seu livro-ensaio no terreno do jornalismo, onde destaca Woden Madruga e Dorian Jorge Freire como "historiadores do nosso cotidiano".

Memória cultural

Para Marize, o potiguar precisa estar atento para evitar a perda completa da memória cultural, tão necessária para se compreender o presente e traçar plano futuros: "Não podemos permitir que as próximas gerações nada saibam de si, do seu passado. Como saberão que são como são?", questiona. Otimista, Marize Castro acredita que a obra de Zila Mamede e de outros autores potiguares já foram bem menos conhecidas do que hoje, e vai além: "Acho que em algum momento o RN vai despontar, nacionalmente, como um pólo de arte e cultura, a exemplo de Pernambuco. Afinal, aqui há talentos incríveis na literatura, na música, nas artes visuais, etc. Talvez seja necessário mais concentração e menos 'fofoca'. Talvez...", arrisca.

Trecho:

Zila Mamede: exata, pronta

"Nesta primeira metade do século XXI, após quase vinte anos da morte de Zila Mamede, alguns incautos, na academia, somente a conhecem porque a principal biblioteca do campus universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Norte recebe o seu nome: Biblioteca Central Zila Mamede - a conhecida BCZM. Muitos não sabem da luta dessa mulher para que esse prédio fosse erguido com o objetivo de abrigar os livros do acervo da UFRN, que se distribuíam, perdiam-se, extraviavam-se nos galpões em péssimas condições físicas ou permaneciam nas casas de certos maus usuários e jamais retornavam para a comunidade universitária.

Zila Mamede ficou conhecida como uma pessoa visceral, metódica, disciplinada, aquela que lutava até o fim por suas crenças, seus projetos, suas crias".

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